sábado, 11 de maio de 2013

Por que, de acordo com o Espiritismo, a doutrina do inferno não existe?

Conforme a opinião de um famoso protestante que viveu no século XIX chamado Jonathan Edwards, o inferno é uma realidade. Não há pluralidade de existências, tampouco oportunidades ulteriores para nos ajustarmos às leis de Deus. O que a Doutrina Espírita tem a declarar em face aos argumentos do teólogo? O texto grifado em vermelho é de autoria de Jonathan Edwards. O que está em preto são os meus comentários.

Por que a punição é infinita?

“...como pois faria eu tamanha maldade, e pecaria contra Deus?”

Gênesis 39:9

Deus é um ser infinitamente amável, porque Ele tem excelência e beleza infinita. Ter excelência e beleza infinita é a mesma coisa que ter infinito encanto. Ele é um ser de infinita grandeza, majestade e glória, e, portanto, Ele é infinitamente honrado.

Correto. Deus é perfeito em todos os seus atributos, pelo que é digno de receber todos os adjetivos elencados por este trecho do argumento de Jonathan Edwards. Embora adulações não convençam Deus a escoimar nossos Espíritos das imperfeições que possuímos.

Ele é infinitamente exaltado acima dos maiores soberanos da terra e os mais altos anjos no céu, e, portanto, Ele é infinitamente mais honrado do que todos estes. Sua autoridade sobre nós é infinita, e o chão firme e imutável do seu direito a nossa obediência é infinitamente forte, pois Ele é infinitamente digno de ser obedecido, e temos uma dependência absoluta, universal e infinita dEle. Assim, o pecado contra Deus, sendo uma violação das obrigações infinitas, deve ser um crime infinitamente hediondo e, portanto, merecedor de punição infinita.



Segundo o Espiritismo, não existe violação contra as leis de Deus que não possa ser reparada. O esquema projetado por Deus para inaugurar o Universo foi baseado em um ordenamento em que não consta qualquer preceito que impõe uma pena de proporções sem termo definido, pois de acordo com o ensino dos Espíritos, Deus é para nós como um Pai cujo amor por seus filhos jamais cessa, virtude essa que é o motivo pelo qual o Criador nunca teve em mente outorgar uma penitência infinita. 



Com efeito, podemos ao menos tentar mensurar quão espetacular é o amor de Deus por nós, uma vez que ainda que nós humanos nos recusemos a obedecer aos seus ordenamentos, não obstante logramos um sem número de ensejos para emendarmos nossas vidas e vivermos pautados nas leis do nosso Pai. 



Portanto, a doutrina da reencarnação deveras nos desvela o amor infindo de Deus por nós, já que ele não reserva um lugar onde seria exilado mesmo o mais impuro de todos os Espíritos por toda a eternidade, pois a cada um Deus retribui conforme a soma de bem ou mal que tenhamos praticado aos nossos semelhantes, sempre havendo chances de restauração individual.


O Livro dos Espíritos, no item 171 (sem ironias com o número, por favor, rs), explana a plenitude da justiça divina que reside na reencarnação:

"171. Em que se funda o dogma da reencarnação?

"'Na justiça de Deus e na revelação, pois incessantemente repetimos: o bom pai deixa sempre aberta a seus
filhos uma porta para o arrependimento. Não te diz a razão que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o melhorarem-se? Não são filhos de Deus todos os homens? Só entre os egoístas se encontram a iniqüidade, o ódio implacável e os castigos sem remissão.'"

Em suma, a Doutrina Espírita repele o dogma de que Deus estabeleceu uma regra que, se violada, sujeitaria o infrator ao sofrimento eterno, pois a benevolência e misericórdia divinas não se coadunam com uma punição que é um flagelo atroz, tendo em vista que semelhante concepção reduziria o caráter divino ao de um déspota universal terrível, o que é uma blasfêmia e afronta a Deus.

Nada é mais agradável para o senso comum da humanidade de que os pecados cometidos contra qualquer pessoa deva ser proporcionalmente hediondo à dignidade do ser ofendido e maltratado.

De forma alguma. O próprio ordenamento jurídico do nosso país, que teve sua gênese na mente de homens falhos, estabelece a igualdade entre todos os cidadãos, não havendo por conseguinte a aplicação de sanções cujas gravidades se distinguem de acordo com o nível, classe social ou qualquer outra classificação em que nos inserimos, logo, as mesmas penas que devem ser impostas a um padre, bispo, monge, pai-de-santo, moralista e congêneres que perpetrarem alguma violação às leis nacionais, da mesma forma um modesto residente de uma comunidade àquelas estará sujeito caso cometa alguma transgressão de uma lei qualquer.


Somente um código de regras jurídicas sem fundamento no princípio da igualdade estimaria uma penalidade cuja intensidade fosse baseada em prerrogativas pessoais, pois uma legislação deve ser equitativa, não fazendo exclusão de pessoas, tratando a cada um de forma igualitária; indistintamente.

Tampouco faz Deus, a personificação da Perfeição, distinção entre nós. Todos, para Ele, somos seus filhos; ainda que alguns de nós necessitemos galgar mais degraus na escala espiritual que outros, mais avançados.

É evidente que Jonathan Edwards se equivocou bastante ao dizer que uma penitência deve estar em conformidade com características intrínsecas a cada indivíduo.

Este foi o agravamento do pecado que fez José temê-lo em Gênesis 39:9: “...como pois faria eu tamanha maldade, e pecaria contra Deus?” Este foi o agravamento do pecado de Davi em comparação com o qual ele estimava todos os outros como nada, porque era infinitamente grande o Deus ofendido por ele: "contra ti, contra ti somente, pequei" - Salmo 51:4

Este argumento firma-se em um artigo de fé que para os espíritas não teve origem em Deus. A Bíblia é sem dúvidas um compêndio de informações, histórias, contos, narrativas e um repositório de fatos relatados que ocorreram no passado com certos povos antigos. As Escrituras, de acordo com a ótica espírita, não constituem autoridade suprema que norteia a vida e a fé do homem.

O peso do castigo dos homens ímpios é infinito, e isso porque não temos palavras para expressar algo mais e maior do que infinito e, portanto, este castigo é proporcional à hediondez do que eles são culpados. Se houver algum mal ou culpabilidade em um pecado sequer contra Deus, certamente há nele um mal infinito.

Seria redundante eu ter de reiterar o que já comentei algures sobre a opinião de Jonathan Edwards acerca da condenação eterna de Deus imposta aos ímpios. Por isso, irei limitar-me a tecer a reflexão de que, se não fosse a misericórdia e o amor intermináveis do Pai Celestial por nós, talvez Ele de fato tivesse promulgado uma regra universal que, se violada, poderia acarretar nossa perdição eterna. Contudo, por nos amar de forma incomensurável, Deus nos oferece sempre a oportunidade de quitarmos nossas dívidas perante a sua majestade através da lei da pluralidade das existências, em vez de ter criado a penitência do ardente fogo infernal inextinguível que expressa nada mais que o furor de um ser que, segundo a paradoxal concepção de Edwards, nos ama incondicionalmente.


Recomendo a leitura de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, para uma compreensão mais minuciosa no respeitante à Justiça divina.

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