quinta-feira, 7 de março de 2013

Como discernir o que há de correto em uma religião daquilo que é falso

Todo o crivo ao qual uma religião deve ser submetida se sumariza nas seguintes máximas que a maioria das religiões admite:

1 - Deus é amor.
2 - Deus é justiça.

A partir desses atributos essenciais de Deus, com os quais as religiões de uma forma geral estão de acordo, podemos distinguir aquilo que provém do Pai daquilo que incorre em um engano ou doutrina espúria.

Toda religião, portanto, que prega que existe apenas uma só fé pela qual o homem pode ser salvo é incoerente com os apanágios divinos, pois com isso ela ignora o amor de Deus Pai, que se estende a todos os homens sem embargo de quais sejam suas convicções religiosas. A justiça de Deus Pai não se configura como aquela postulada pelas religiões exclusivistas e preconceituosas, que ao invés de honrarem a Deus disseminam conceitos ignóbeis que têm origem na aversão por doutrinas religiosas diferentes das suas. Deus julga a todos em conformidade com a soma de bem e mal, ao cabo da pluralidade de existências, que nós desenvolvemos enquanto encarnados.

Qual é, talvez indaguem alguns, a minha base para fazer tais asserções?

Vou reiterar meus fundamentos: Princípios desvelados pelas religiões que são logicamente coerentes com os atributos de Deus elencados acima. Podemos, desde que os admitamos, extrair de cada religião uma porção da Verdade, a qual paulatinamente se descortina diante de nós à proporção que nos aperfeiçoamos na escala espiritual.




Respostas a alguns argumentos cristãos fundamentalistas


Obstáculos ao cristianismo

“Os obstáculos do incrédulo não começam com questionamentos sobre este ou aquele milagre em particular, e sim muito antes. Quando alguém que teve apenas uma educação nos moldes atuais examina uma declaração legitima da doutrina cristã, ele depara com algo que lhe parece uma imagem totalmente “selvagem” ou “primitiva” do universo. Então descobre que Deus supostamente teria tido um “Filho”, como se fosse uma divindade mitológica à semelhança de Júpiter ou Odin. Descobre também que esse “Filho” supostamente “desceu do Céu”, com se Deus tivesse um palácio ali, de onde enviou Seu “Filho” como um paraquedista. É informado, por fim, que esse “Filho”, também supostamente “desceu ao inferno”, uma espécie de terra dos mortos sob a superfície de uma Terra (presumivelmente) plena e “ascendeu” desse lugar outra vez, como por um balão, até o palácio celestial do Pai, onde finalmente se assentou numa cadeira adornada, à direita do Pai. Tudo parece pressupor uma concepção de realidade à qual o aperfeiçoamento de nosso conhecimento tem prontamente recusado nos últimos dois mil anos e à qual nenhum homem honesto e de bom senso poderia retomar hoje. Essa é a impressão que explica o desprezo e até mesmo a aversão de muitas pessoas aos escritos dos cristãos de nossos dias”.

Exato. O próprio autor do texto compromete toda a sua fé ao reconhecer que o cristianismo tradicional é destituído de racionalidade, tendo em vista que toda a sua estrutura está fundamentada em conceitos míticos desprovidos de razão, os quais ele mesmo ressalta em seu texto. Nada tenho a declarar a mais sobre o assunto, pois a dissertação em si expõe o caráter mitológico das doutrinas cristãs ortodoxas.

Impossibilidade da ocorrência de milagres

““Não. É claro que não acredito nisso! Sabemos que é contrário às leis da natureza. As pessoas podiam crer nisso antigamente, porque não conheciam as leis da Natureza, mas agora sabemos que é algo cientificamente impossível.”

O conceito de que o progresso da ciência de alguma forma alterou a questão dos milagres, está intimamente relacionado com a noção de que as pessoas “antigamente” acreditavam em milagres “porque não conheciam as leis da Natureza”. Por isso, ouviremos pessoas afirmarem: “Os primeiros cristãos acreditavam que Cristo era filho de uma virgem, mas sabemos que isso é cientificamente impossível”. Tais pessoas parecem ter a idéia de que a crença em milagres surgiu em um período em que os homens eram tão ignorantes com relação ao curso da Natureza a ponto de não perceber que um milagre seria contrario a ele. Se refletirmos por um momento, perceberemos que isso é uma tolice e a historia do nascimento virginal é um exemplo particularmente surpreendente. Quando José descobriu que sua noiva estava grávida, a decisão de repudiá-la foi natural. Por quê? Porque ele sabia tão bem quanto qualquer ginecologista moderno que, pelo curso da Natureza, as mulheres só engravidavam quando têm relações sexuais com um homem. É óbvio que os ginecologistas modernos conhecem muito mais coisas do que José conhecia, mas esse não é o centro da questão: Que um nascimento virginal é contrario ao curso da Natureza. José obviamente sabia disso. Em qualquer sentido que hoje fosse verdadeiro afirmar: “Isso é cientificamente impossível”, ele teria dito o mesmo. Isso sempre foi impossível e considerado uma impossibilidade, A NÃO SER QUE os processos normais da Natureza estivessem, nesse caso em particular, sendo dominados ou alterados por algo além dela. Quando José finalmente aceitou a idéia de que a gravidez de sua prometida não era fruto de infidelidade, mas de um milagre, ele aceitou o milagre como algo contrario à ordem conhecida da Natureza. Todos os milagres ensinam-nos a mesma coisa. Em tais historias, eles provocam medo e admiração (é justamente o que o próprio termo Milagre implica) entre os espectadores e são considerados evidencias de um poder sobrenatural. Se não fossem encarados como contrários às leis da Natureza, como poderiam sugerir a presença do sobrenatural? Como poderiam surpreender se não fossem vistos como exceções à regra? E como algo pode ser considerado exceção até que as regras sejam conhecidas? Se houvesse alguém que não conhecesse absolutamente nada sobre as leis da Natureza, não teria a mínima idéia do que seria um milagre nem sentiria qualquer interesse particular se um deles lhe ocorresse. Nada parece extraordinário até que se conheça o ordinário.”

O conceito de milagre implica que haja uma derrogação das leis naturais. Deus é o autor das Leis que governam o Universo e nem mesmo ele as viola ou suspende, pois não existe essa necessidade, já que as Leis da Natureza por Ele implementadas são perfeitas e não demandam que sejam em qualquer situação anuladas. Mesmo que caso não conheçamos por enquanto todas as regras que regem o Universo, não se segue daí que podemos presumir que os milagres possam existir, porquanto tais princípios outrossim não podem ser sustados pelo próprio Deus, que os formulou. Destarte, a doutrina do nascimento virginal, por consistir em um dogma que pressupõe um evento contrário às leis da Natureza, não pode ser verdadeiro assim como o episódio conhecido como ressurreição de Cristo também não deve receber o atributo de ser prodigioso, porque são relatos miraculosos. 

terça-feira, 5 de março de 2013

A Bíblia e a doutrina da Reencarnação - Ponto de vista espírita


Como se não bastassem as doutrinas desprovidas de qualquer lógica que estão contidas nas páginas da Bíblia, há também no dito livro sagrado ensinamentos que contradizem a doutrina da Reencarnação. Segundo este sistema teológico, somos aquilo que decidimos ser por opção e esforço individual, ou seja, toda a humanidade está imersa na lei da semeadura, que se baseia no axioma “A cada um será dado segundo as suas obras” e na máxima: “Aquilo que o homem semear, isso também ceifará”, ambas pronunciadas por Jesus Cristo.

A Bíblia encerra uma doutrina que abstrai-se da Justiça Divina, pois prega a existência de um julgamento ulterior que será gerido por um deus rancoroso sedento por condenar a humanidade pela religião, espiritualidade ou fé a que nos aderimos durante nosso viver. Ao invés de Jeová ater-se somente ao bem que nos empenhamos por fazer, ele deseja nos reprovar mediante querelas religiosas. Se não aceitarmos os dogmas instituídos na Bíblia, nos será imposta a sentença da eternidade do fogo do inferno. O Deus verdadeiro, em contrapartida, nos faculta as oportunidades necessárias para percorrermos a rota de nossa evolução espiritual, ao invés de nos lançar em chamas eternas em função de uma vida de pecados temporários e por termos crido em uma religião que não esteja em conformidade com preceitos bíblicos.

Argumentam alguns grupos religiosos que a Bíblia é a única regra de fé e prática do servo de Jeová. Interpretam eles, por isso, algumas palavras de Jesus em um sentido que vem a conceber que Cristo se referia ao mencionado livro sagrado toda vez que utilizava a expressão “palavra de Deus”. Ao meu ver, esse modo de compreender Jesus deturpa o que ele teve por intuito transparecer de fato com a destacada expressão, tendo em vista que o Mestre combateu com afinco dogmas absurdos de sua época, como certamente faria hoje em relação à doutrina da inerrância e autoridade absoluta das Escrituras. Analisemos, não obstante, os versos que supostamente se contrapõem à reencarnação:

"Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça". – 2 Timóteo 3:16

Segundo a opinião de diversos religiosos, o termo “Escritura” remete-se à Bíblia. Digno de nota é que o volume sagrado foi compilado séculos depois da redação de todos os livros que a Igreja mais tarde denominou “Bíblia”. Os apóstolos não poderiam estar fazendo qualquer alusão às Escrituras qual nós a temos hoje, a menos que os sequazes de certas religiões creiam no anacronismo explicitado.

Quanto à asserção de que Jesus embasava seus ensinos na Bíblia, devo objetar novamente que os livros do Novo Testamento nem os da Antiga Aliança haviam sido reunidos em um só volume pela Igreja Católica (que também não existia). Como, portanto, Jesus poderia pretender aludir-se a um livro que em sua época não havia ainda sido compilado? Somente tinha ele acesso aos manuscritos sagrados do Judaísmo, como a Torá. Os judeus consideravam tais documentos como sendo de origem divina, entretanto não há nenhuma afirmação objetiva de Jesus que confirme sua crença no mesmo dogma, nem sequer os trechos seguintes:

"A tua palavra é a verdade" – João 17:17

"Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" - Mateus 4:4

A sentença que Jesus emitiu no deserto, a saber, “toda palavra que procede da boca de Deus” implica necessariamente que ele estava se reportando à Bíblia? Não. Teólogos católicos e protestantes formularam doutrinas alheias aos ensinamentos do Mestre e adaptaram as suas palavras às pressuposições que criaram, pelo que o termo “palavra” nesta passagem como em muitas outras passou a ser sinônimo de “Bíblia Sagrada”. A “palavra de Deus”, em sua conotação original, é tudo o que há de verdadeiro. Ora, se nem tudo o que a Bíblia diz é verdade, ela não pode ser em totalidade qualificada como a “palavra de Deus”, segue-se, pois, que argumentos fundamentados no livro sagrado dos cristãos nem sempre são racionalmente consistentes.

Outro pretexto frisado por alguns sectários de religiões para negarem a reencarnação é que Jesus recomendou que examinássemos as Escrituras em decorrência de que as mesmas testificam dele, conforme reza a passagem:

"Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida" - João 5.39-40

Mais uma vez, nota-se que nossos irmãos religiosos cometem o erro de confundirem a Bíblia Sagrada como a temos em mãos hoje com os antigos manuscritos sagrados do Judaísmo. Além disso, o Mestre Jesus em nenhum momento pretendeu delinear através de sua afirmação que cria em toda a revelação do cânone judaico, mas apenas aconselhou que a examinássemos para que através dela estivéssemos a par do que a mesma declara a respeito de Cristo. Isto é diferente de dizer que é mister que acreditemos em toda a Bíblia do contrário seremos lançados no inferno por toda a perpetuidade.

Jesus, além do mais, usava as Escrituras sempre que nela encontrava algum suporte para os princípios que trouxera ao mundo. Por isso, os judeus de sua época o consideravam um herege, em virtude de retirar certas passagens do contexto em que se situavam para justificar o seu ponto de vista espiritual, sendo em razão disso certa vez até mesmo ameaçado de apedrejamento por blasfêmia:

“Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai.
Eu e o Pai somos um. Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar.
Respondeu-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses? Pois, se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada), àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?
- João 10:29-36

Similarmente, é deplorável que haja nos dias de hoje religiosos os quais são como os judeus do passado, por exprobrarem pessoas como eu de heresia por extraírem da Bíblia certos trechos que segundo a hermenêutica que sustentam, estão todos descontextualizados. No entanto, eu me recuso a aceitar a inspiração divina completa da Bíblia e concordo apenas parcialmente com as doutrinas que o livro contêm, compreendendo-o à luz da lógica que Deus Pai incorporou na mente humana.

Não obstante, os religiosos citam outro texto, na tentativa de embasar a idéia de que quem crê na reencarnação não conhece as Escrituras, conforme os seguintes dizeres de Jesus:

"Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus" - Mateus 22.29

Ora, na ocasião em que Jesus assim se manifestou, estava ele apresentando uma explicação acerca do tema ressurreição. Já que os judeus estavam de tal maneira engajados nos dogmas dos textos sagrados em que acreditavam, Cristo demonstrava sapiência ao explanar as diretrizes espirituais fazendo com as mesmas analogias com conceitos presentes na fé judaica.

Outros religiosos se fundamentam na convicção de que Jesus considerava a Bíblia como sendo a Palavra de Deus devido à seguinte passagem:

 Lucas 16:29-31

De acordo com o argumento de certas religiões, Jesus Cristo fez alusão aos profetas do Antigo Testamento, o que induziria-nos a depreender que o Mestre por isso qualificava a lei e os profetas como totalmente sagradas. Nisto, porém, residem os equívocos da interpretação que um sem número de religiões adotam. O primeiro erro está associado à negligência que os religiosos fazem no que diz respeito ao contexto cultural em que Jesus se situava, o qual era judaico e exacerbadamente imbuído de um dogmatismo que em sua época era vigente. Portanto, Jesus elaborava suas parábolas de modo que estas estivessem em harmonia com alguns princípios do Judaísmo, o que obviamente era uma estratégia do Mestre para atrair com mais eficiência o interesse dos religiosos de seu tempo pelas mensagens que estava difundido.

Nos dias hodiernos, contudo, urge que a humanidade faça distinção entre o objetivo central de tudo o que Jesus ensinou e os meios que ele utilizou para transmitir suas doutrinas, já que estes últimos eram em geral produtos da cultura e religião de seu tempo, que ele incorporava em suas parábolas e metáforas para a melhor compreensão de seus ouvintes. Basta que nos coloquemos no lugar de Jesus para que possamos entendê-lo da maneira correta, pois nem sempre a interpretação literal daquilo que foi dito por ele é logicamente coerente.

Quanto aos demais livros bíblicos, que dizem acerca da reencarnação? Consultemos o mais citado verso da Bíblia comumente mencionado pela vasta maioria dos religiosos para justificar sua descrença na referida doutrina:

“E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo,” - Hebreus 9:27

Nada irei impugnar no que diz respeito ao trecho de Hebreus. Se há adeptos de credos que preferem crer naquilo que afirmaram autores da Bíblia que expressaram uma opinião doutrinária divergente daquela que Jesus pontificou aos homens, que assim seja. Não estou disposto a concordar com o parecer de pessoas que discordem do que Jesus Cristo ensinou, a menos que alguém possa me provar que o Mestre instruiu os seus seguidores a se adunarem a ensinamentos espúrios. Repilo, do mesmo modo, passagens bíblicas como as seguintes também, pelo fato de supostamente censurarem a reencarnação:

"Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito" - 1 Pedro 3.18

O texto compreendido em 1 Pedro 3:18 é outro subterfúgio usado por religiosos para negligenciarem a reencarnação, pois de acordo com a opinião de algumas pessoas aderidas a movimentos que não são reencarnacionistas, basta que creiamos em Jesus como o Salvador de nossas almas para que sejamos justificados perante Deus. É consenso entre as regras de fé pontificadas por religiões muito populares, Deus enviou seu inocente filho ao mundo para nos purificar de nossos pecados, o que contradiz a justiça divina a qual não poderia conjugar-se à ideia de que Deus permitiu que alguém imaculado como Jesus tenha levado sobre si uma responsabilidade que compete tão somente a nós. Se mesmo poucos humanos cometeriam o disparate de sacrificar seus respectivos filhos em prol da absolvição dos criminosos de uma penitenciária, tampouco Deus assim agiria, pois Ele é justo e a cada um retribui segundo suas próprias obras.

“Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do sono.
Disseram, pois, os seus discípulos: Senhor, se dorme, estará salvo. Mas Jesus dizia isto da sua morte; eles, porém, cuidavam que falava do repouso do sono. Então Jesus disse-lhes claramente: Lázaro está morto; E folgo, por amor de vós, de que eu lá não estivesse, para que acrediteis; mas vamos ter com ele. Disse, pois, Tomé, chamado Dídimo, aos condiscípulos: Vamos nós também, para morrermos com ele. Chegando, pois, Jesus, achou que já havia quatro dias que estava na sepultura. (Ora betânia distava de Jerusalém quase quinze estádios.) E muitos dos judeus tinham ido consolar a Marta e a Maria, acerca de seu irmão. Ouvindo, pois, Marta que Jesus vinha, saiu-lhe ao encontro; Maria, porém, ficou assentada em casa. Disse, pois, Marta a Jesus: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas também agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá. Disse-lhe Jesus: Teu irmão há de ressuscitar. Disse-lhe Marta: Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto? Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo. E, dito isto, partiu, e chamou em segredo a Maria, sua irmã, dizendo: O Mestre está cá, e chama-te. Ela, ouvindo isto, levantou-se logo, e foi ter com ele. (Ainda Jesus não tinha chegado à aldeia, mas estava no lugar onde Marta o encontrara.) Vendo, pois, os judeus, que estavam com ela em casa e a consolavam, que Maria apressadamente se levantara e saíra, seguiram-na, dizendo: Vai ao sepulcro para chorar ali. Tendo, pois, Maria chegado aonde Jesus estava, e vendo-o, lançou-se aos seus pés, dizendo-lhe: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu-se muito em espírito, e perturbou-se. E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê. Jesus chorou. Disseram, pois, os judeus: Vede como o amava. E alguns deles disseram: Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também com que este não morresse? Jesus, pois, movendo-se outra vez muito em si mesmo, veio ao sepulcro; e era uma caverna, e tinha uma pedra posta sobre ela. Disse Jesus: Tirai a pedra. Marta, irmã do defunto, disse-lhe: Senhor, já cheira mal, porque é já de quatro dias. Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus? Tiraram, pois, a pedra de onde o defunto jazia. E Jesus, levantando os olhos para cima, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido. Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste. E, tendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai para fora. E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: Desligai-o, e deixai-o ir.”
- João 11:11-44

A passagem encerra o relato da ressurreição de Lázaro. Muitos pressupõem, baseado neste trecho do Evangelho de João, que a reencarnação não existe, pois nesta narrativa um cadáver tornou a viver embora seu espírito já devesse estar no plano espiritual ou mesmo em outro corpo físico. Ao meu ver, tudo o que há na Bíblia que não se enquadra nas leis espirituais deve ter seu rótulo de autenticidade eliminado, uma vez que muitos contos ou princípios bíblicos contradizem a razão e os editos divinos. Por conseqüência, convém inferir que o testemunho contido em João 11:11-14 nunca se concretizou, ou, conforme outra hipótese, necessariamente deve ter sofrido uma deturpação ao cabo de sua transmissão. De algo se pode ter certeza quanto ao trecho destacado algures: Jesus não poderia ter obrado algo contrário às leis de Deus, logo qualquer outra hipótese que se destine a explicar o que de fato sucedeu é mais aceitável que acreditarmos que Lázaro realmente ressuscitou.

Há diferentes outros princípios bíblicos aos quais crentes fervorosos na Bíblia estão aderidos e que reprovam a lógica da reencarnação:

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.” - Daniel 12:2

"Os teus mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão; despertai e exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho será como o orvalho das ervas, e a terra lançará de si os mortos. - Isaías 26:19

“Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele.” - Oséias 6:2

“Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo.” - 1 Coríntios 15:21-22

“Tendo esperança em Deus, como estes mesmos também esperam, de que há de haver ressurreição de mortos, assim dos justos como dos injustos.” - Atos 24:15

“Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos.” - Apocalipse 20:6

Não estando a Bíblia em grande parte acorde com a pluralidade das existências, cumpre-nos rejeitar a sua inspiração divina total, uma vez que a reencarnação consiste em uma lei instaurada por Deus no universo. Se as múltiplas vidas são rechaçadas por versículos bíblicos, segue-se que ela não pode estar dizendo a verdade quanto ao que ocorre após a morte, pois sabemos que Deus não enviou ninguém ao mundo para nos remir dos erros pelos quais nós mesmos teremos de responder. A responsabilidade pelas faltas que cometemos é tão somente nossa e Jesus ou qualquer outra pessoa jamais levaria sobre si o fardo de nossos pecados, como ensina a teologia cristã tradicional. O plano de Deus Pai para a redenção da humanidade é a capacitação que ele nos confiou de aprendermos a fazer aquilo que é certo mediante os princípios de moralidade que Ele decretou.

Aceitar Jesus, acreditar que ele é o redentor de nossas almas ou crer que a Bíblia é a inerrante Palavra de Deus não são critérios para a redenção humana, mas são somente preceitos que a religião outorgou, fazendo com que muitos se olvidassem de que o único caminho para Deus é o esforço que desempenhamos para amortizar as máculas do nosso caráter que imprimem em nós uma egressão do Pai Celeste. Apesar disso, há religiosos que persistem em considerarem a concepção religiosa que pregam a única verdadeira, citando inclusive ensinamentos de Jesus como respaldo para suas doutrinas:

Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá" - João 11.25

 
"Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." - João 14:6

Para mim, não restam dúvidas de que a interpretação das palavras de Jesus que os religiosos promovem é destituída de concordância com o que Cristo pretendeu realmente dizer. Crer em Jesus não significa necessariamente que alguém acredite ser ele quem expiou a sua alma das falhas morais que possui, ao invés disso, o propósito original das palavras do Mestre conforme expressas nos trechos acima é afirmar que quem pratica o que Jesus ensinou herdará a vida eterna e que não existe outro meio de sermos redimidos de nossos defeitos a não ser através do esforço por fazermos o bem. Não é por acaso que certa feita, disse também o Senhor:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” - Mateus 7:2

Não é imprescindível para a humanidade crer que Jesus seja o Senhor do Universo ou o Redentor das almas dos homens, pois o critério que autoriza alguém a adentrar os portões celestiais é fazer a vontade do Pai, isto é, empreender esforços para trilhar os caminhos do bem e das virtudes.

Jesus Cristo jamais estabeleceu através de suas boas novas uma filosofia religiosa exclusivista, segundo a qual todos os que não crerem em um tipo específico de fé serão condenados ao tormento infindo. Em vez disso, ele é o caminho, a verdade e a vida no sentido de que apenas colocando em exercício os seus elevados padrões e valores morais viveremos conforme a vontade de Deus. Assim, ainda que alguém esteja com o seu espírito mortificado pela desonra dos pecados que comete, desde o momento em que se empenha por domar seus maus pendores, essa tal pessoa começa a restaurar-se.

Impugnando o ponto de vista dos partidários de denominações religiosas que menosprezam a doutrina da pluralidade das existências, não existe motivo razoável para se supor que as pessoas que não concordam com um princípio de fé ou aquelas que não vivem pautadas nos dogmas de uma religião ou de um livro sagrado serão condenadas por Deus Pai ao tormento infernal. Querelas religiosas não são critérios que serão requisitados a nós durante o juízo do Deus do Amor.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Jesus Cristo declarou ser Deus? - Teologia Espírita

Verdadeira anuência entre a maior parcela das vertentes cristãs existe no tocante ao dogma da divindade de Cristo. Os católicos e protestantes compõem a maioria dos cristãos que povoa o mundo e professa a fé em Jesus como alguém que afirmou ser o próprio Deus. Entretanto, este artigo de crença muito popular e debatido entre muitos religiosos encontra sustentação nas palavras de Cristo? Não, pois está fundado em axiomas que foram sistematizados tendo como pedra angular a pressuposição de que a Bíblia é, sem excluir sequer uma de suas laudas que foram enxertadas no cânon por acordo entre expoentes representantes da religião cristã, divinamente inspirada por Deus e portanto nenhum de seus ensinos, como alegam os adeptos da fé dogmática, deve ser menosprezado. Não admitimos semelhante teoria.

Faz-se imperioso observar que o Dualismo Espiritual não ignora certos princípios ou trechos de origem bíblica em razão de não agradarmo-nos com o que eles afirmam, já que alegar motivos emocionais na tentativa de invalidar uma doutrina não basta para prová-la inconsistente, além de denotar puerilidade da parte de quem argumenta da forma descrita. Por isso, toda vez que um dualista espiritual não concorda com alguma citação da Bíblia, significa que ele, por não julgar a tal passagem compatível com a razão, e, com efeito, promanada do trono de Deus Pai, enfim a qualifica como uma reles opinião sem caráter sobrenatural.

Os críticos, apesar das elucidações há pouco discorridas, objetam nossa abordagem das Escrituras por suporem que, com improbidade intelectual, desdenhamos muitos textos da Bíblia ou os interpretamos conforme nosso bel-prazer deliberadamente. Isso não é verdade. A Doutrina Dualista Espiritual estimula o burilamento da arte do raciocínio, porquanto através desta dádiva com que a Divindade do Bem nos privilegiou, podemos distinguir, dentre outras coisas, o que é verdadeiro daquilo que é falso, inclusive no tocante aos livros sagrados, mais precisamente na Bíblia, afinal, agindo de maneira consentânea com o que a própria Escritura exorta, devemos tudo examinar e reter o que é bom (1 Tessalonicenses 5:21). Em suma, qualquer relato, ideologia, filosofia ou ensinamento de procedência bíblica, deve ser averiguado pelo crivo da razão, já que esta é um como uma bússola que Deus Pai construiu para nos nortear no que diz respeito a no que acreditar em matéria de religião. Crer que a Bíblia é, do Gênesis ao Apocalipse, absolutamente veraz, é o mesmo que negligenciar o apanágio ímpar da racionalidade que o Senhor da Paz insuflou no espírito humano.

Portanto, tendo nós concluído as preliminares observações, perscrutemos os Evangelhos, e, a partir das citações deles extraídas e comentadas a seguir, conclamo o leitor a inferir qual é a autêntica natureza de Jesus, abstraindo-se de antemão dos princípios que regulam qualquer religião baseada em dogmas como a inerrância e inspiração divina total das Escrituras.

- Lucas 9:48

“E, lançando mão de um menino, pô-lo no meio deles e, tomando-o nos seus braços, disse-lhes: Qualquer que receber um destes meninos em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, recebe, não a mim, mas ao que me enviou. - Marcos 9:36-37

“Disse-lhes, pois, Jesus: Se Deus fosse o vosso Pai, certamente me amaríeis, pois que eu saí, e vim de Deus; não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. - João 8:42

“Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda um pouco de tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou. - João 7:33

Nas passagens acima destacadas, Jesus enfatiza a sua subordinação em relação a Deus. Ora, aquele que é enviado por alguém, obedece ao mandado daquele que recebe a ordem de ir a um destino qualquer para agir conforme os propósitos de seu superior. A doutrina teológica implementada na época em que os dogmas do cristianismo estavam em processo de formação não repousa sobre o testemunho que Jesus prestou no que concerne à sua inferioridade perante Deus.

Ademais, Cristo assumiu ser inferior a Deus, o que ratifica o fato de que ele não é a mesma pessoa que o Criador manifesto em carne, ao testificar a sua submissão ao Ente Supremo. Analise os textos seguintes para uma compreensão mais sucinta acerca dessa proposição:

“Ouvistes que eu vos disse: Vou, e venho para vós. Se me amásseis, certamente exultaríeis porque eu disse: Vou para o Pai; porque meu Pai é maior do que eu.” João 14:28

“E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.” Mateus 19:16-17

“E, pondo-se a caminho, correu para ele um homem, o qual se ajoelhou diante dele, e lhe perguntou: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus. Marcos 10:17-18

“E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna? Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus.” Lucas 18:18-19

Nos três últimos trechos bíblicos, Jesus enfatiza que somente Deus é bom, o que aduz uma evidência de que o Mestre não teve em qualquer instância a aspiração de comparar-se ao Pai, que é maior que ele, segundo respalda o seu próprio testemunho.

Jesus explicitou, ainda, que o Pai lhe havia confiado a missão de anunciar tudo o que Deus determinou que ele teria de proclamar. Isto subentende que Jesus Cristo estava cumprindo a ordem sagrada com a qual Deus o comissionou, o que seria uma alegação inconsistente caso Jesus fosse de fato um homem cujo patamar se igualasse ao do Arquiteto do Universo. Se Cristo fosse mesmo Deus, não teria asseverado que a alguém teria de obedecer, ao invés disso, atuaria consoante seus propósitos supremos sem que estivesse submetido à vontade de outro ser:

“Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito.”- João 12:49-50

As doutrinas e ensinamentos ministrados por Jesus ao cabo do serviço espiritual que desempenhou na Terra não procederam dele mesmo, mas de Deus. A partir de tal fato, deduz-se a conclusão de que Deus é superior a Cristo, uma vez que aquele foi quem planejou e delegou o que Jesus haveria de cumprir em nosso mundo, assim como o instruiu de acordo com as Suas doutrinas que competiria ao Mestre propalar. Em adição, Jesus afirmou também que veio ao mundo não para realizar seus intuitos próprios, tendo em vista que agiu conforme a ordem e ensinamentos de Deus, que o enviou:

“Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou.” - João 7:16

 - João 14:10

“Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada.” - João 8:28-29

“Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou. - João 14:24

O Mestre Jesus almejou, através das quatro declarações arroladas acima, esclarecer que não foi ele quem elaborou as doutrinas e ensinos que difundiu em seu ministério terreno. Foi Deus quem o elucidou o que deveria explicar ao mundo, fato este que denota a submissão, dependência e inferioridade de Jesus em relação a Deus.

Além do mais, Jesus Cristo jamais agiu conforme sua volição pessoal, antes veio ao mundo para colocar em prática o mandado que Deus lhe prescreveu, o que ratifica ainda mais a certeza de que Jesus foi um emissário do Pai e não o próprio Criador em carne e ossos:

”- João 6:38

No versículo seguinte, Jesus salientou também que é depende de Deus para fazer qualquer coisa:

”- João 5:30

Segundo o próximo trecho, Jesus recebeu de Deus obras que por ele deveriam ser realizadas. Explicando de modo mais conciso, Cristo obedeceu a uma missão de origem divina, tendo sido por este motivo enviado por Deus, para a consolidação dos propósitos deste último na Terra. Em adendo, Jesus salienta novamente que Deus o enviou, o que endossa ainda mais o fato de que Cristo está subordinado ao Criador, ao invés de ser ele o próprio Deus:

“Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço, testificam de mim, que o Pai me enviou.” - João 5:36

Deus é Onisciente, atributo este que implica que acerca de todas as coisas o Criador tem conhecimento. Se Jesus e Deus fossem de fato a mesma pessoa, Cristo em hipótese alguma teria feito a afirmação a seguir:

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar. Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai. - Mateus 24:35-36

Jesus Cristo foi um mensageiro enviado por Deus à Terra para propagar as boas novas que do Pai auscultou e aprendeu. Caso Cristo fosse deveras Deus, não teria sido necessário receber do Criador ensinamentos inerentes àquilo que tinha por meta anunciar ao mundo, já que por implicação Jesus saberia de antemão o que ministrar:

 João 8:40

Perceba também, no verso citado acima, que Jesus releva que é apenas um homem. Suponho que o tenha feito para avalizar que foi apenas um servo do Altíssimo, ao invés de deixar transparecer que era o próprio Deus em carne.

Em uma outra ocasião, Jesus usou um título um pouco similar a “homem” ao ter denominado a si mesmo como o “filho do homem”, adicionando a esta informação que Deus lhe concedeu ter vida em si mesmo assim como o poder de exercer juízo. Disto, deduz-se a superioridade do Senhor do Universo em relação a Cristo, já que este recebeu do Pai duas dádivas que somente Deus lhe poderia outorgar. Ora, se Jesus realmente fosse Deus, não teria coerência afirmarmos que o Mestre recebeu algo do Criador, uma vez que ele seria a própria Causa de todas as coisas:

“Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo;
E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem.” 
João 5:26-27

Jesus Cristo esclareceu que jamais um homem viu o parecer de Deus, ou seja, contemplou a aparência do mesmo. O Mestre jamais teria verbalizado semelhante afirmação, caso o Deus encarnado estivesse verdadeiramente diante da face de muitos humanos. Jesus remeteu-se também ao sentido da audição, quando comentou que nunca a voz de Deus foi escutada por alguém, sendo portanto incoerente com as palavras de Jesus alegar que ele é Deus:

”- João 5:37

O Mestre em qualquer hipótese jamais pretendeu afirmar que constitui, com Deus, literalmente um mesmo ser. Os aforismos seguintes demonstram que Jesus e Deus compõem uma unidade no que tange à afinidade espiritual que abunda entre ambos. Semelhantemente, Jesus rogou ao Pai para que nós humanos formemos com eles uma unidade, o que não constitui motivo para inferir-se que devido a tal prece de Cristo, sejamos por consequência o próprio Deus.

Como complemento, Jesus ainda manifestou em sua rogativa a Deus o desejo de que todos nós fossemos um, como ele e Deus o são. Cristo fez alusão à harmonia que nos conectaria a todos, tornando-nos, em um sentido metafórico, apenas um ente:

“E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós.” - João 17:11

Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim.” João 17:21-23

“Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós. - João 14:20

Em uma outra demonstração de sujeição a Deus, o Mestre Jesus afirmou que guardava os mandamentos do Pai, isto é, fazia aquilo que Deus lhe havia ordenado:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.” João 15:10

Durante a fervorosa oração que dirigia a Deus no Getsêmani, Cristo proferiu uma distinção entre a sua vontade pessoal e a volição divina. Caso fossem a mesma pessoa, não poderia existir contradição de pensamentos, tampouco Jesus se permitiria sujeitar à vontade de Deus. A inferência que resulta da leitura do versículo a seguir é óbvia: Jesus e Deus não são o mesmo Ente e um está subordinado ao outro.

“Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua. Lucas 22:42

“E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. - Mateus 26:39

“E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade. - Mateus 26:42

“E disse: Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres. - Marcos 14:36

No momento de seu decesso, Jesus bramiu dizendo entregar nas mãos de Deus o seu espírito. Admitindo a possibilidade de Cristo e Deus comporem o mesmo ser, é forçoso que imediatamente após a consulta ao próximo texto repilamos a doutrina da deidade de Jesus, já que seria incoerente com o dito dogma a afirmação que procedeu dos lábios do Mestre segundo a qual o seu espírito foi encaminhado a Deus após o seu passamento, uma vez que ele seria o próprio Criador do Universo:

“E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou.” - Lucas 23:46

Se Jesus fosse Deus, teria dito algo como “em minhas próprias mãos entrego o meu espírito”, o que não faria muito sentido. Entretanto, ao se referir a Deus, a quem confiou o seu ser imaterial pouco antes de falecer, demonstrou a dependência que tinha da Divindade.

Ainda enquanto sofria o suplício da crucificação, Jesus exclamou um questionamento, anelando por saber qual seria a razão pela qual Deus o havia desamparado. As palavras do Mestre destacadas a seguir subentendem novamente a dependência de Jesus em relação a Deus, e os cuidados deste que Cristo reclamou para si:

“E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? - Mateus 27:46

Em certa ocasião, Jesus aparentemente asseverou ser Deus. Entretanto, as suas palavras no contexto do excerto a seguir sugerem que tal interpretação seria incorreta, uma vez que estaria em contradição com as observações que Jesus apontou acerca de em qual sentido ele afirmou ser, com o Pai, um só. Em linhas gerais, de acordo com a concepção de Cristo a respeito de um versículo do Antigo Testamento, são deuses todos aqueles a quem a palavra de Deus é dirigida. Além do mais, no início da passagem transcrita abaixo, Jesus Cristo é bem taxativo ao afirmar que o Pai é maior do que todos:

Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai.
Eu e o Pai somos um. Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar. Respondeu-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses? Pois, se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada), Àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?”
  - João 10:29-36

Os judeus não compreenderam com exação o intento de Jesus ao declarar que ele e o Pai são um, outrossim, grande parte dos cristãos hodiernos também não depreenderam corretamente o sentido da afirmativa do Mestre. Porém, a explicação de Jesus foi apresentada após a reação violenta dos judeus ao que disse Cristo.

Há quem defenda a posição teológica de que Jesus recuperou a sua autoridade divina após a ressurreição devido à seguinte passagem:

“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra.” - Mateus 28:18

Contudo, parecem se olvidar os proponentes da linha de raciocínio que propugna a doutrina da Trindade da palavra “dado”. Uma vez que Jesus recebeu o poder, segue-se que alguém superior a ele lhe concedeu autoridade, pois aquele que delega poderes é necessariamente maior que aquele que recebe.

Para desmantelar a ideia de que Jesus teve seus poderes restituídos depois de sua morte e ressurreição, confira o testemunho do próprio Mestre depois de ter sido supostamente levantado dentre os mortos:

"Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. - João 20:17

A doutrina da Trindade é, pois, uma concepção dogmática incompatível com as palavras do precursor do cristianismo. É um fruto de uma abordagem errônea dos antigos manuscritos dos quais a Igreja se arrogou nos primórdios da época em que Constantino instituiu a medida de organizar a fé cristã, que no tempo de seu governo consistia em um amálgama de divergentes visões e mesmo Evangelhos contraditórios. O plano do imperador estava imbuído de fins muito mais políticos que religiosos.

As chamas do inferno - Interpretando a Bíblia literalmente

Talvez o prezado leitor já tenha indagado a si mesmo qual é a metodologia do julgamento divino para penalizar as almas que, durante suas estadias na Terra, transgrediram os mandamentos de Deus e viveram de um modo indiferente quanto às suas responsabilidades perante a justiça divina.

Particularmente, creio que Deus pune o homem consoante a soma de bem ou mal que tenha obrado enquanto viveu no mundo, sendo por isso a pena ulterior que recebemos diretamente proporcional às infrações que cometemos contra as leis instituídas pelo Criador do Universo. Em outras palavras, o mecanismo da Justiça Divina subentende o que denomino Causa e Efeito Espirituais, ou seja, todas as coisas que fazemos ao cabo de nossas vidas enquanto estivermos no plano material, irão desencadear uma cadeia de efeitos decorrentes dos nossos atos e escolhas terrenas. Considero a minha visão sensata e logicamente coerente com os atributos de Deus, até o presente momento.

O que afirma, por outro lado, a Bíblia Sagrada no que tange às punições que Deus inflige aos ímpios? Sumarizarei o ensino bíblico sobre este tema em uma palavra: Inferno. Jeová condena por toda a perpetuidade almas que agonizam no tamanho aziago destino das chamas que não possuem termo. Esta concepção é justa? Obviamente não. O inferno contradiz a lógica e a razão, conforme elucida o argumento abaixo:

1.     Deus Pai é amor.
2.     Deus Pai é justiça.
3.     A justiça está atrelada ao amor.
4.     O amor não permite e tampouco pode impor uma eternidade de sofrimentos.
5.     Portanto, o inferno não existe.

A justiça está subordinada ao amor porque sem este a primeira seria ineficaz e parcial, já que sem o amor não pode existir retidão genuína na justiça. O amor é exorável e nele não pode haver sombra alguma de truculência e, por conseguinte, jamais procederia dele a crueldade sem fim que compreende a doutrina do inferno. Conclui-se que não há inferno.

A Bíblia, em contrapartida, faz afirmativas acerca da realidade de um lago de fogo e enxofre para onde são encaminhadas as almas de todos os que não creram nas Escrituras ou em Jesus. Analisemos a seguir como o inferno é descrito pela Bíblia.

“E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas; e porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna - Mateus 25:31-46

” - Isaías 33:14

"Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes... Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os justos, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes." - Mateus 13:41, 42, 49, 50

"E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo." - Apocalipse 20:15

"Seguiu-se a estes outro anjo, o terceiro, dizendo, em grande voz: Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro." - Apocalipse 14:9-10

"A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível."Mateus 3:12

"No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio." - Lucas 16:23

Conforme demonstram os textos bíblicos referenciados acima, Jeová condena à eternidade de penas quem tem por infortúnio não seguir os seus mandamentos. O caráter do deus bíblico é evidentemente terrífico e homens cruéis como Hitler e Stalin seriam meros amadores diante de tamanha malignidade por parte de um ser como Jeová.

Segundo o ponto de vista de Adolf Hitler e seus seguidores, era justa a aniquilação dos judeus; semelhantemente, na opinião de Stalin e seus discípulos, o extermínio de milhares de vidas com o fim de consolidar seus propósitos foi equitativo. Hoje, creio que de forma não muito diferente, os cristãos defendem Jeová afirmando que é justo atormentar por séculos infindáveis os que não o receberam como Senhor. Isso não é amor, é estupro. É uma alienação do senso de justiça humano. O inferno não é real.

Uma estratégia de coerção para induzir pessoas a aceitarem o cristianismo como a doutrina do inferno não pode ter origem em Deus, que é Soberano em Amor e Benevolência. Tampouco faz sentido que a represália divina seja um castigo que se prolonga por toda a eternidade, porque Deus é compassivo e não permitiria que suas criaturas agonizassem para todo o sempre em chamas ardentes.

O mecanismo criado por Deus para gerir a sua própria Justiça não é a punição, mas sim a correção. A repreensão divina tem a sua gradação diretamente proporcional à soma de bem e mal posto em prática por cada pessoa; não está sujeita à fé, crença ou religião de ninguém, pois Deus não tem preconceitos religiosos. Ele respeita a liberdade que todo ser humano goza de compreendê-lo da maneira que julgar mais coerente, desde que respeitando o próximo.