Obstáculos ao cristianismo
“Os
obstáculos do incrédulo não começam com questionamentos sobre este ou aquele
milagre em particular, e sim muito antes. Quando alguém que teve apenas uma
educação nos moldes atuais examina uma declaração legitima da doutrina cristã,
ele depara com algo que lhe parece uma imagem totalmente “selvagem” ou
“primitiva” do universo. Então descobre que Deus supostamente teria tido um
“Filho”, como se fosse uma divindade mitológica à semelhança de Júpiter ou
Odin. Descobre também que esse “Filho” supostamente “desceu do Céu”, com se
Deus tivesse um palácio ali, de onde enviou Seu “Filho” como um paraquedista. É
informado, por fim, que esse “Filho”, também supostamente “desceu ao inferno”,
uma espécie de terra dos mortos sob a superfície de uma Terra (presumivelmente)
plena e “ascendeu” desse lugar outra vez, como por um balão, até o palácio
celestial do Pai, onde finalmente se assentou numa cadeira adornada, à direita
do Pai. Tudo parece pressupor uma concepção de realidade à qual o aperfeiçoamento
de nosso conhecimento tem prontamente recusado nos últimos dois mil anos e à
qual nenhum homem honesto e de bom senso poderia retomar hoje. Essa é a
impressão que explica o desprezo e até mesmo a aversão de muitas pessoas aos
escritos dos cristãos de nossos dias”.
Exato. O próprio autor do texto
compromete toda a sua fé ao reconhecer que o cristianismo tradicional é
destituído de racionalidade, tendo em vista que toda a sua estrutura está
fundamentada em conceitos míticos desprovidos de razão, os quais ele mesmo
ressalta em seu texto. Nada tenho a declarar a mais sobre o assunto, pois a
dissertação em si expõe o caráter mitológico das doutrinas cristãs ortodoxas.
Impossibilidade da ocorrência de milagres
““Não. É
claro que não acredito nisso! Sabemos que é contrário às leis da natureza. As
pessoas podiam crer nisso antigamente, porque não conheciam as leis da
Natureza, mas agora sabemos que é algo cientificamente impossível.”
O
conceito de que o progresso da ciência de alguma forma alterou a questão dos
milagres, está intimamente relacionado com a noção de que as pessoas
“antigamente” acreditavam em milagres “porque não conheciam as leis da
Natureza”. Por isso, ouviremos pessoas afirmarem: “Os primeiros cristãos
acreditavam que Cristo era filho de uma virgem, mas sabemos que isso é
cientificamente impossível”. Tais pessoas parecem ter a idéia de que a crença
em milagres surgiu em um período em que os homens eram tão ignorantes com
relação ao curso da Natureza a ponto de não perceber que um milagre seria
contrario a ele. Se refletirmos por um momento, perceberemos que isso é uma
tolice e a historia do nascimento virginal é um exemplo particularmente
surpreendente. Quando José descobriu que sua noiva estava grávida, a decisão de
repudiá-la foi natural. Por quê? Porque ele sabia tão bem quanto qualquer
ginecologista moderno que, pelo curso da Natureza, as mulheres só engravidavam
quando têm relações sexuais com um homem. É óbvio que os ginecologistas
modernos conhecem muito mais coisas do que José conhecia, mas esse não é o
centro da questão: Que um nascimento virginal é contrario ao curso da Natureza.
José obviamente sabia disso. Em qualquer sentido que hoje fosse verdadeiro
afirmar: “Isso é cientificamente impossível”, ele teria dito o mesmo. Isso sempre
foi impossível e considerado uma impossibilidade, A NÃO SER QUE os processos
normais da Natureza estivessem, nesse caso em particular, sendo dominados ou
alterados por algo além dela. Quando José finalmente aceitou a idéia de
que a gravidez de sua prometida não era fruto de infidelidade, mas de um
milagre, ele aceitou o milagre como algo contrario à ordem conhecida da
Natureza. Todos os milagres ensinam-nos a mesma coisa. Em tais historias, eles
provocam medo e admiração (é justamente o que o próprio termo Milagre implica)
entre os espectadores e são considerados evidencias de um poder sobrenatural.
Se não fossem encarados como contrários às leis da Natureza, como poderiam
sugerir a presença do sobrenatural? Como poderiam surpreender se não fossem vistos
como exceções à regra? E como algo pode
ser considerado exceção até que as regras sejam conhecidas? Se houvesse
alguém que não conhecesse absolutamente nada sobre as leis da Natureza, não
teria a mínima idéia do que seria um milagre nem sentiria qualquer interesse
particular se um deles lhe ocorresse. Nada parece extraordinário até que se
conheça o ordinário.”
O conceito de milagre implica que
haja uma derrogação das leis naturais. Deus é o autor das Leis que governam o
Universo e nem mesmo ele as viola ou suspende, pois não existe essa
necessidade, já que as Leis da Natureza por Ele implementadas são perfeitas e
não demandam que sejam em qualquer situação anuladas. Mesmo que caso não
conheçamos por enquanto todas as regras que regem o Universo, não se segue daí
que podemos presumir que os milagres possam existir, porquanto tais princípios
outrossim não podem ser sustados pelo próprio Deus, que os formulou. Destarte,
a doutrina do nascimento virginal, por consistir em um dogma que pressupõe um
evento contrário às leis da Natureza, não pode ser verdadeiro assim como o
episódio conhecido como ressurreição de Cristo também não deve receber o
atributo de ser prodigioso, porque são relatos miraculosos.
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