quarta-feira, 1 de maio de 2013

Comprovação de que a Bíblia não é completamente inspirada por Deus



Abaixo, segue a transcrição de um argumento que foi postado na página de apologética cristã Clive Staples Lewis, a qual pode ser localizada no Facebook. O autor do conteúdo teve por pretensão responder um questionamento ateísta muito pertinente relacionado à autenticidade dos escritos bíblicos. Analisemos a validade da retórica do apologista com o objetivo de demonstrar quão falaciosa ela é.

Ateu: "A Bíblia é toda contraditória e está Cheia de Erros e mais de 2 mil contradições! Se a Bíblia é a palavra de Deus, portanto não pode ter erro, se tem erros não é a palavra de Deus. Dê-me a Bíblia, eu mostro as contradições e então PROVO que Deus não existe".

É bem verdade que a Bíblia está repleta de erros. Qualquer pessoa sensata que a ler atentamente, sem escrutá-la preconcebendo dogmas subjetivos e infundados, não carecerá de muito esforço para notar que as Escrituras tão veneradas pelos protestantes são racionalmente e moralmente repugnantes e diversos aspectos. Portanto, tal realidade torna evidente que o Deus bíblico, Jeová, não existe; o que não se deduz a partir disso, porém, que não seja verdadeira a Divindade Superior em que eu acredito.


Teísta Cristão: "Quais erros? Quais contradições? É necessário apontar uma a uma para que a questão seja válida. Se o questionamento for do tipo moral pessoal, já é descartado, pois não se avalia a validade de algo por gosto pessoal;

A moral é o princípio que regula as ações humanas. Sem ela, é impossível discernimos o certo do errado; aquilo que é justo do que é injusto. As páginas da Bíblia, sobretudo as que se podem folhear no Antigo Testamento, estão marcadas pelo sangue de milhares de pessoas que foram liquidadas por exércitos que teriam sido comandadas pelo amoroso deus do cristianismo. Isso sem mencionar também as centenas de animais que foram sacrificados como meio de os homens expiarem as suas iniquidades perante um déspota universal que os governava. Narrativas de genocídios que causam choque emocional em qualquer pessoa de sanidade moral indene que as leia e legislações obsoletas que demonstram a ausência de nexo em que se fundaram as leis veterotestamentárias constituem motivos suficientes para que a Bíblia seja desqualificada como Palavra de Deus, pois, para quem tem o mínimo senso de ética e moral, não são poucas as razões para que concluamos que as Escrituras não podem ter sido cabalmente inspiradas por um ente amoroso e benévolo.

Todavia, quiçá arguirão ainda os apologistas do sofisma da religião cristã exclusivista que não é sensato desprezar o compêndio bíblico devido ao nosso ponto de vista moral pessoal. Porém, olvidam-se eles, antes de arquitetaram essa tática evasiva, que William Lane Craig advoga em prol do argumento de que existe um padrão de moralidade objetivo, que não depende do homem, mas de Deus. Logo, muitos de nossos valores emanam do Criador, ao invés de serem formulados por nossa própria consciência ou opinião particular. Graças ao senso moral absoluto, somos todos capazes, desde que raciocinando com honestidade, de assimilarmos que nem tudo o que narra ou ensina a Bíblia se coaduna com a palavra Verdade.

Se for científico, falha, pois a “Bíblia” não tem o objetivo de ser um livro de descrição de causas e efeitos no mundo natural e a Ciência não legisla proibindo milagres; Se o centro da disputa for em relação a um aspecto teológico relevante, então ela pode, no máximo, danificar aquele aspecto, não o Cristianismo em geral; Mesmo que a contradição seja bem sucedida, ele serve apenas para estabelecer a crítica aquela passagem, não a invalidade geral da Bíblia (ampliação indevida); 

Neste trecho, o apologista desfecha um golpe contra a própria doutrina que defende. Se a Bíblia é a perfeita Palavra de Deus, se infere a partir disso que tudo o que ela contém é verdadeiro, em quaisquer aspectos, pois provém de Deus, o Criador do Universo e aquele que detém em Si toda a Ciência. Caso haja nas Escrituras alguma afirmativa que contrarie a ciência, é forçoso que se admitam as hipóteses de ou Deus ser mentiroso ou de que o livro sagrado incorre em erros. Já que a primeira afirmação é incoerente com a Perfeição, depreende-se que a Bíblia é cientificamente inválida, logo, não tem procedência completamente divina.

Portanto, mesmo que toda a Bíblia fosse inválida, não seria o caso de pular para o ateísmo, pois a discussão da existência de Deus é feita separadamente da validade da Bíblia; A maioria das “contradições” são dificuldades de interpretação, quanto a não observância do contexto histórico, e das passagens paralelas que podem causar vários mal entendidos. 

Os denominados "mal entendidos" e as "dificuldades de interpretação" são solucionados através de nada mais que uma ardilosa retórica. O apologista que propõe estratégias para refutar uma contradição ou erro bíblico normalmente recorre a técnicas argumentativas muito semelhantes às daqueles que eram empregadas pelos sofistas na época da Grécia Antiga, para destarte induzir indivíduos a concordarem com raciocínios aparentemente lógicos, mas que a bem da verdade conduzem a desatinos, como por exemplo é o caso de Norman Geisler, que em sua Enciclopédia Apologética propugna a doutrina do inferno com ardor e astúcia. É lamentável saber que os cristãos teoricamente defendam a prática da honestidade mas apesar disso desenvolvem teorias intelectualmente desonestas.

Se mesmo assim, essas dificuldades não forem sanadas, os estudiosos partem para a análise das línguas originais da Bíblia (hebraico para o Antigo Testamento e grego para o Novo Testamento) que podem resolver muitos aparentes problemas. Isso não é uma prática diferente de qualquer outra análise textual do material traduzido. 

Essa técnica apologética, se não me falha a memória, é conhecida como exegese. Os defensores da Bíblia investigam os idiomas em que foram redigidos os primeiros manuscritos do livro sagrado com o fito de criarem formas variadas de interpretar ou de traduzir uma ou mais passagens. A verdade é que esse tipo de estudo das Escrituras apenas contribui para relevar a incoerência e as contradições da Bíblia, porquanto a fé cristã ortodoxa se estriba em um livro que pode ser compreendido de maneiras controversas e que geram confusão. Não há como existir uma interpretação uniforme da Bíblia, já que existem múltiplas formas de transliterarmos os seus textos. Assim, o estudo do hebraico e do grego constituem um argumento para rejeitarmos o dogma da inspiração divina da Bíblia.

Todas as línguas (especialmente o hebraico e grego) têm limitações especiais e nuanças que causam dificuldade na tradução. Por isso antes de se tentar entender um livro tão complexo, é necessário: 


– a) Tomar as palavras no sentido gramatical; 

– b) Examinar o sentido original das palavras;

– c) Tomar as palavras dentro de seu contexto. 

– d) Examinar o estilo empregado;

– e) Tomar as palavras em relação com o propósito do livro.

– f) Estudar as palavras à luz da situação histórica e geográfica;

– g) Examinar as passagens paralelas;

– h) Tomar conhecimento do contexto teológico; 

Os itens que o apologista elencou acima abrangem o complexo de estratagemas que se fadam a elaborar uma sustentação da doutrina espúria da inerrância bíblica. Entretanto, a finalidade prática das metodologias exegéticas da teologia cristã é eclipsar a verdade e o sentido óbvio e claro que o texto bíblico enuncia, para assim arquitetar a aparência de as Escrituras se fundarem na razão. É notório, por conseguinte, que os apologistas cristãos são sofistas natos, uma vez que a estrutura dos raciocínios que caracterizam suas argumentações induzem os seus leitores a conclusões absurdas, como a de que Deus pode ser bom e simultaneamente infligir flagelos infindáveis a quem não for cristão. A princípio, para os leigos que desconhecem as técnicas de retórica dos apologistas, parece haver honestidade intelectual da parte deles no tocante ao que alegam acerca da Bíblia, todavia, isto dissipa-se quando percebe-se que o que é patente se choca com os sofismas da apologética cristã.


– i) Nunca se esquecer que, Um significado recente de uma palavra não pode ser transportado para um texto antigo, por isso a suma importância de ler todo o texto bem como conhecer seu contexto para que possa identificar o sentido original da mensagem. Por isso existem, a análise Crítica, exegese e hermenêutica que são metodologias científicas que ajudam a identificar as dificuldades no entendimento bíblico. Dê-me a Bíblia, eu mostro as contradições e então PROVO que Deus não existe? Se eu vendo um quadro dizendo ser de Van Gogh e você descobre ele uma parte em que ele foi modificado, então significa que o quadro tem uma falha, não que Van Gogh não existe; e muito menos que não há nenhuma participação de Van Gogh no processo (ainda poderia ter alguma). Calma lá com seus saltos lógicos. As coisas não são tão simples quanto você coloca. Não estou dizendo que a Bíblia não é importante ou que não deveríamos defendê-la. Só devemos ter algo em mente: quando um cético ataca certa parte da Bíblia, ele está só criando uma crítica a tal parte. Não criando um validador do ateísmo. O truque aqui é a transformação do teísmo em uma crença na inerrância bíblica".

No que toca à exegese, hermenêutica e análise crítica, nada mais tenho a comentar, porquanto expliquei que não são mais que reles táticas ardilosas que têm por objeto encobrir o sentido lógico de uma passagem da Bíblia, para que desse modo o apologista engendre um método de fazer a Escritura aparentar ser racionalmente válida. De fato, concordo com a assertiva de que, se um ponto na Bíblia estiver em confronto com a lógica, não significa a partir disso que Deus não exista. Aliás, me reportando inclusive às demais doutrinas religiosas que pululam este mundo, ainda que nem todo dogma seja filosoficamente concebível, não é lícito depreender que não haja Deus algum, mas sim que nem sempre o que ensinam e difundem a respeito Dele é verossímil.

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