Abaixo, segue a transcrição de um argumento que foi
postado na página de apologética cristã Clive Staples Lewis, a qual pode ser
localizada no Facebook. O autor do conteúdo teve por pretensão responder um
questionamento ateísta muito pertinente relacionado à autenticidade dos
escritos bíblicos. Analisemos a validade da retórica do apologista com o
objetivo de demonstrar quão falaciosa ela é.
Ateu: "A Bíblia é toda contraditória e está Cheia de Erros e mais de 2 mil contradições! Se a Bíblia é a palavra de Deus, portanto não pode ter erro, se tem erros não é a palavra de Deus. Dê-me a Bíblia, eu mostro as contradições e então PROVO que Deus não existe".
É bem verdade que a Bíblia
está repleta de erros. Qualquer pessoa sensata que a ler atentamente, sem
escrutá-la preconcebendo dogmas subjetivos e infundados, não carecerá de muito
esforço para notar que as Escrituras tão veneradas pelos protestantes são
racionalmente e moralmente repugnantes e diversos aspectos. Portanto, tal
realidade torna evidente que o Deus bíblico, Jeová, não existe; o que não se
deduz a partir disso, porém, que não seja verdadeira a Divindade Superior em
que eu acredito.
A moral é o princípio que regula as ações humanas. Sem ela,
é impossível discernimos o certo do errado; aquilo que é justo do que é
injusto. As páginas da Bíblia, sobretudo as que se podem folhear no Antigo
Testamento, estão marcadas pelo sangue de milhares de pessoas que foram
liquidadas por exércitos que teriam sido comandadas pelo amoroso deus do
cristianismo. Isso sem mencionar também as centenas de animais que foram
sacrificados como meio de os homens expiarem as suas iniquidades perante um
déspota universal que os governava. Narrativas de genocídios que causam choque
emocional em qualquer pessoa de sanidade moral indene que as leia e legislações
obsoletas que demonstram a ausência de nexo em que se fundaram as leis
veterotestamentárias constituem motivos suficientes para que a Bíblia seja
desqualificada como Palavra de Deus, pois, para quem tem o mínimo senso de
ética e moral, não são poucas as razões para que concluamos que as Escrituras
não podem ter sido cabalmente inspiradas por um ente amoroso e benévolo.
Todavia, quiçá arguirão ainda os apologistas do sofisma da
religião cristã exclusivista que não é sensato desprezar o compêndio bíblico
devido ao nosso ponto de vista moral pessoal. Porém, olvidam-se eles, antes de
arquitetaram essa tática evasiva, que William Lane Craig advoga em prol do
argumento de que existe um padrão de moralidade objetivo, que não depende do
homem, mas de Deus. Logo, muitos de nossos valores emanam do Criador, ao invés
de serem formulados por nossa própria consciência ou opinião particular. Graças
ao senso moral absoluto, somos todos capazes, desde que raciocinando com
honestidade, de assimilarmos que nem tudo o que narra ou ensina a Bíblia se
coaduna com a palavra Verdade.
Se for científico, falha, pois a “Bíblia” não tem o objetivo de ser um livro de descrição de
causas e efeitos no mundo natural e a Ciência não legisla proibindo milagres; Se o centro da
disputa for em relação a um aspecto teológico relevante, então ela pode, no
máximo, danificar aquele aspecto, não o Cristianismo em geral; Mesmo que a
contradição seja bem sucedida, ele serve apenas para estabelecer a crítica
aquela passagem, não a invalidade geral da Bíblia (ampliação indevida);
Neste trecho, o apologista desfecha um golpe contra a
própria doutrina que defende. Se a Bíblia é a perfeita Palavra de Deus, se
infere a partir disso que tudo o que ela contém é verdadeiro, em quaisquer
aspectos, pois provém de Deus, o Criador do Universo e aquele que detém em Si
toda a Ciência. Caso haja nas Escrituras alguma afirmativa que contrarie a
ciência, é forçoso que se admitam as hipóteses de ou Deus ser mentiroso ou de
que o livro sagrado incorre em erros. Já que a primeira afirmação é incoerente
com a Perfeição, depreende-se que a Bíblia é cientificamente inválida, logo,
não tem procedência completamente divina.
Portanto, mesmo que toda a Bíblia fosse
inválida, não seria o caso de pular para o ateísmo, pois a discussão da
existência de Deus é feita separadamente da validade da Bíblia; A
maioria das “contradições” são dificuldades de interpretação, quanto a não
observância do contexto histórico, e das passagens paralelas que podem
causar vários mal entendidos.
Os denominados "mal entendidos" e as
"dificuldades de interpretação" são solucionados através de nada mais
que uma ardilosa retórica. O apologista que propõe estratégias para refutar uma
contradição ou erro bíblico normalmente recorre a técnicas argumentativas muito
semelhantes às daqueles que eram empregadas pelos sofistas na época da Grécia
Antiga, para destarte induzir indivíduos a concordarem com raciocínios
aparentemente lógicos, mas que a bem da verdade conduzem a desatinos, como por
exemplo é o caso de Norman Geisler, que em sua Enciclopédia Apologética
propugna a doutrina do inferno com ardor e astúcia. É lamentável saber que os
cristãos teoricamente defendam a prática da honestidade mas apesar disso
desenvolvem teorias intelectualmente desonestas.
Se mesmo assim, essas dificuldades não forem
sanadas, os estudiosos partem para a análise das línguas originais da Bíblia
(hebraico para o Antigo Testamento e grego para o Novo Testamento) que podem
resolver muitos aparentes problemas. Isso não é uma prática diferente de
qualquer outra análise textual do material traduzido.
Essa técnica apologética, se não me
falha a memória, é conhecida como exegese. Os defensores da Bíblia investigam
os idiomas em que foram redigidos os primeiros manuscritos do livro sagrado com
o fito de criarem formas variadas de interpretar ou de traduzir uma ou mais
passagens. A verdade é que esse tipo de estudo das Escrituras apenas contribui
para relevar a incoerência e as contradições da Bíblia, porquanto a fé cristã
ortodoxa se estriba em um livro que pode ser compreendido de maneiras
controversas e que geram confusão. Não há como existir uma interpretação
uniforme da Bíblia, já que existem múltiplas formas de transliterarmos os seus
textos. Assim, o estudo do hebraico e do grego constituem um argumento para
rejeitarmos o dogma da inspiração divina da Bíblia.
Todas as línguas (especialmente o hebraico e
grego) têm limitações especiais e nuanças que causam dificuldade na tradução.
Por isso antes de se tentar entender um livro tão complexo, é necessário:
– a) Tomar as palavras no sentido
gramatical;
– b) Examinar o
sentido original das palavras;
– c) Tomar as palavras dentro de seu
contexto.
– d) Examinar o estilo empregado;
– e) Tomar as palavras em relação com o
propósito do livro.
– f) Estudar as palavras à luz da situação
histórica e geográfica;
– g) Examinar as passagens paralelas;
– h) Tomar conhecimento do contexto
teológico;
Os itens que o apologista elencou acima abrangem o complexo
de estratagemas que se fadam a elaborar uma sustentação da doutrina espúria da
inerrância bíblica. Entretanto, a finalidade prática das metodologias
exegéticas da teologia cristã é eclipsar a verdade e o sentido óbvio e claro
que o texto bíblico enuncia, para assim arquitetar a aparência de as Escrituras
se fundarem na razão. É notório, por conseguinte, que os apologistas cristãos
são sofistas natos, uma vez que a estrutura dos raciocínios que caracterizam
suas argumentações induzem os seus leitores a conclusões absurdas, como a de
que Deus pode ser bom e simultaneamente infligir flagelos infindáveis a quem
não for cristão. A princípio, para os leigos que desconhecem as técnicas de
retórica dos apologistas, parece haver honestidade intelectual da parte deles
no tocante ao que alegam acerca da Bíblia, todavia, isto dissipa-se quando
percebe-se que o que é patente se choca com os sofismas da apologética cristã.
– i) Nunca se
esquecer que, Um significado recente de uma palavra não pode ser transportado
para um texto antigo, por isso a suma importância de ler todo o texto bem como
conhecer seu contexto para que possa identificar o sentido original da
mensagem. Por isso existem, a análise
Crítica, exegese e hermenêutica que
são metodologias científicas que ajudam a identificar as dificuldades no
entendimento bíblico. Dê-me a Bíblia, eu mostro as contradições e então PROVO
que Deus não existe? Se eu vendo um quadro dizendo ser de Van Gogh e você descobre ele uma parte em que
ele foi modificado, então significa que o quadro tem uma falha, não que Van
Gogh não existe; e muito menos que não há nenhuma participação de Van Gogh
no processo (ainda poderia ter alguma). Calma lá com seus saltos lógicos. As
coisas não são tão simples quanto você coloca. Não estou dizendo que a Bíblia
não é importante ou que não deveríamos defendê-la. Só devemos ter algo em mente:
quando um cético ataca certa parte da Bíblia, ele está só criando uma crítica a
tal parte. Não criando um validador do ateísmo. O truque aqui é a
transformação do teísmo em uma crença na inerrância bíblica".
No que toca à exegese, hermenêutica e análise crítica, nada
mais tenho a comentar, porquanto expliquei que não são mais que reles táticas
ardilosas que têm por objeto encobrir o sentido lógico de uma passagem da
Bíblia, para que desse modo o apologista engendre um método de fazer a
Escritura aparentar ser racionalmente válida. De fato, concordo com a assertiva
de que, se um ponto na Bíblia estiver em confronto com a lógica, não significa
a partir disso que Deus não exista. Aliás, me reportando inclusive às demais
doutrinas religiosas que pululam este mundo, ainda que nem todo dogma seja
filosoficamente concebível, não é lícito depreender que não haja Deus algum,
mas sim que nem sempre o que ensinam e difundem a respeito Dele é verossímil.
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